sábado, 15 de abril de 2017

Quimera

Líquido como o ar que passa,
por entre as rochas, 
devagar, o tempo desdobra-se 
e a dor mais profunda
como gotas de sangue 
que caem e escoam no chão. 

Fingi estar bem,
Sorri, como quem olha para as estrelas
e lê a primeira letra do poema.
Sorri, como quem sente
as ondas na ponta dos dedos.
Sorri, por entre os gritos de desespero
que como um eco percorrem os ossos
retorcem as veias e dilaceram os músculos.
Suavemente, sorri, o som do choro
já não faz sentido
e deixo-me invadir pela quimera
de uma infância roubada
de uma casa de bonecas imaginária
de um abraço de conforto nunca recebido.  

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Mais suave

Beija a flora da boca, como se não houvessem segredos Desflora as horas mal dormidas, as noites fantasmagorias Beija como se nunca tivesses sido traída. Ah! O beijo do amor inocente E tu tentaste, não é verdade? Ser mais doce, mais meiga, mais prestável usar saia um palmo acima da integridade "Não te pintes, que ficas feia." e tu só querias ser bonita, ser mais elegante, mais altiva mas não demasiado pois isso poderia ser demais.
Então lutaste contra ti Ergueste as mãos e bateste no peito, Tentaste ser suave como uma nuvem de algodão ser mais compreensiva, aprendeste a dar sem pedir a sussurrar os sentimentos... (secam-te os lábios) No sopro de cada instante por entre os dedos repousas as promessas, Olha, para as tuas mãos estão presas, aos rasgos de luz e aos espasmos por entre a tua pele branca petrificada E no silêncio de cada pestanejar a navalha corta mas não mata. Ao longe, paisagens de paisagens esmagam-te! Por entre os golpes infernais, o vento, poeiras de outras eras, muralhas e muralhas palpitam-te as horas na garganta, tens medo? E tu tentaste ser mais meiga, mais submissa, mas és areia movediça, és o grito solto na garganta és tu, na tua forma mais pura de ser, Não te deixes, sobrevive-te!

domingo, 25 de dezembro de 2016

Pedaços



Chegará o dia, em que todos os pedaços de mim morrerão,
delicadamente, por entre as ondas da maresia
e o vento passará por entre os fios uivando em agonia.

A minha maior angústia é saber  que apenas amei
o sonho que sonhei, vagarosamente o tempo transforma-se em angústia
como um cavalo preto perdido por entre a bruma, incerteza.

Chegará o dia,  em que tudo aquilo que criei
prontamente desaparecerá
e novamente os gritos desesperados
da esperança consumiram o incenso das horas mortas.

Olhas perplexo, milhares de pedaços de mim
desfeitos, como pó de estrelas voam, voam...
para lá do horizonte. 

domingo, 25 de setembro de 2016

ébano

A tua pele castanha
na ponta dos meus dedos
que curva entre o infinito
o improvável e o desassossego.

Tu na tua forma mais perfeita
de ser, a tua boca soturna e meiga
em cada entardecer
junto ao mar, aquele mesmo mar
que antes nos separava
e que hoje unidos vislumbramos.

Vieste de tão longe de outro oceano
roubaste a minha alma
num sopro doce e brando
ébano exuberante, olhos castanhos
de pura sedução, só tu consegues
deslindar os fios do meu pensamento.





domingo, 24 de abril de 2016

Respirar

Tento respeitar a minha franqueza
por um segundo,
Tento aceitar a tristeza maior
o gosto límpido do orvalho da manhã
o sossego, a paz, o silêncio
breve como a vida.
Depressa inundo-me e renego
o meu ser, a minha alma
volto a adormecer
pois só no sono mais profundo
sou quem quero ser.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Algas

Um dia, quando o vento correr
acordado até aos teus braços
o verde será demasiado profundo
e a areia demasiado espessa...

Nem o principio de um palavra
será necessária para delinear
a densidade do teu abraço...

No ar preso devagar
emerge o teu sorriso oceânico.
Aqui, o tempo não existe
no instante dos teus dedos
o dia pleno e limpo.

Esta é a madrugada
Em que junto ao cais espero
atravessar a espuma luminosa
e livres galgaremos o rumor das algas...